Defesa Animal

Onca protesta contra rodeio na Festa da Uva (RS)

Crueldade, tortura e irregularidades legislativas foram vistas no rodeio

Por: Bruna Viapiana Felippi/Onca-SG

No último domingo, 22 de setembro, ativistas do grupo Onca/SG realizaram um protesto pacífico em frente aos Pavilhões da Festa da Uva, onde correu o encerramento da Semana Farroupinha. Este evento é marcado por diversas práticas de exploração animal, sendo a mais cruel o rodeio crioulo, que conta com as provas de laço e gineteada. O objetivo do protesto foi demonstrar o repúdio às práticas tradicionalistas que exploram os animais e os submetem a crueldade, práticas essas que são justificadas pelos tradicionalistas como sendo essenciais para a cultura gaúcha, levando o público que assiste a estes eventos a acreditar que se trata de um esporte ou de simples diversão pública.

Bois sendo conduzidos sem alternativas de escolha do caminho.

Os ativistas chegaram nos Pavilhões por volta das 10h e em razão do pouco movimento foi possível entrar na cancha de rodeios, onde se possibilitou visualizar diversas irregularidades e crueldade com os animais. Os cavalos estavam presos sob cordas muito curtas, impossibilitando de mexer até mesmo a cabeça, expostos a chuva e ao frio, bem como demonstrando muito estresse em razão de estarem presos em más condições. Na cancha ocorriam as provas de laço, onde bois e bezerros eram perseguidos em velocidade pelo cavaleiro, que tentava laçar o animal e derrubá-lo no chão, objetivo principal da prova. Ocorre que nessa prática, o bezerro pode sofrer ruptura na medula espinhal, ocasionando morte instantânea, alguns ficam paralíticos ou sofrem rompimento parcial ou total da traquéia. O resultado de ser atirado para o chão pode causar facilmente a ruptura de diversos órgãos internos levando o animal a uma morte lenta e dolorosa. No Brasil, as provas de laço ainda são realizadas em desacordo com a legislação, pois o parágrafo 3º do artigo 4º da Lei Federal 10.519/02 estabelece que as cordas utilizadas no laço devem dispor de redutores de impacto, o que de fato não ocorre.

Bois antes de serem utilizados no rodeio.

Outra prova praticada é a Gineteada, onde o cavaleiro monta em um cavalo arisco ou ainda não domesticado; incentivando o animal para corcovear; sustentar-se na cela enquanto o animal corcoveia. A fim de amenizar a evidente crueldade a que os animais são submetidos, o artigo 4º da Lei Federal 10.519/02 proíbe expressamente o uso de esporas com rosetas pontiagudas ou qualquer outro instrumento que cause ferimentos nos animais. No caso, foram vistos vários gaúchos utilizando esporas indevidas, inclusive lojas dentro dos Pavilhões estavam vendendo diversos tipos de esporas com rosetas pontiagudas, afirmando o vendedor da loja que os gaúchos estavam utilizando as mesmas nas provas. Essas esporas (presa na bota dos peões) é utilizada para estocar os animais durante a montaria, mediante seguidos golpes que lhes atingem o baixo-ventre, o pescoço e até a cabeça. Soma-se às causas de estresse o uso de peiteiras (ocasionando-lhes sensação de sufocamento) e de sinos (cujo barulho contínuo causa irritação no animal).

No entanto, o que mais chamou a atenção dos ativistas foi as condições físicas dos animais. Alguns cavalos apresentavam machucados, cortes e esfolações. Alguns bezerros que se encontravam na cancha estavam em estado de desnutrição, bem como apresentavam mutilações pelo corpo e machucados expostos. Embora essa situação fosse visível, os bezerros feridos e debilitados continuavam sendo vítimas das provas de laço que estavam ocorrendo no momento, o que de fato demonstra desconformidade com o artigo 3º, II, da lei 10.519/02, que dispõe sobre a obrigatoriedade de “médico veterinário habilitado, responsável pela garantia da boa condição física e sanitária dos animais e pelo cumprimento das normas disciplinadoras, impedindo maus tratos e injúrias de qualquer ordem”.

Ativista realiza panfletagem.

Os ativistas puderam fotografar todas essas irregularidades e crueldades, servindo como prova em eventual processo judicial e até mesmo divulgação no Facebook a fim de conscientizar as pessoas de que o rodeio configura maus tratos e crueldade contra os animais. Não existe prova de laço sem crueldade, visto que o objetivo da prática é laçar o animal enquanto corre, e quando o cavaleiro atinge o objetivo é praticamente impossível não resultar em graves lesões ao animal. Não existe gineteada sem crueldade, visto que as esporas usadas pelo cavaleiro são justamente para criar pânico e dor no animal, fazendo com que ele corcoveie.

Logo após a verificação dentro do local onde ocorriam as provas, o grupo Onca permaneceu em frente aos Pavilhões onde fizeram o protesto, que contou com a presença de oito ativistas. Com faixas, cartazes, banners expostos na frente do portão de entrada, o grupo seguiu fazendo trabalho de panfletagem, que se iniciou por volta das 13 horas da tarde. Muitos carros chegaram, e pode-se dizer que a maioria não se manifestava, recebia os panfletos oferecidos e seguiam em frente, com exceção de algumas pessoas que olhavam com desprezo, amassavam os panfletos e jogavam no chão, alguns lançavam argumentos contrários ao protesto e até mesmo ofensas, mas o grupo manteve-se firme e conseguiu esclarecer um grande número de pessoas que se mostraram receptivas à causa.

Protesto do grupo Onca contra rodeio e exploração animal.

O protesto foi gratificante no sentido de alertar as pessoas quanto ao repúdio a essas práticas cruéis que fazem parte da tradição gaúcha, embora pode-se concluir que a maioria dos gaúchos que defendem o rodeio não estejam preocupados com o bem estar dos animais bem como demonstrando indiferença e frieza ao sofrimento, estresse, pânico e dor visivelmente demonstrados pelos animais. Não há como negar que todos os procedimentos transformam o rodeio em inequívoca manifestação de crueldade para com os animais, muitas vezes ainda desobedecendo a normas que visam justamente amenizar esse sofrimento. Gaúchos tradicionalistas costumam dizer que não há ofensa constitucional quando se exalta – mesmo que à custa de violência – um costume local, no entanto esses argumentos soam como verdadeiras heresias jurídicas, pois o dispositivo contido na Constituição Federal veda a submissão de animais à crueldade, sendo um preceito geral que deve ser indiscutivelmente levado em consideração.

4 Comentários

  1. Muito boa matéria, lamentavelmente verdadeira. Demonstra o quanto o humano é cruel e de má índole. Sentir prazer em humilhar, torturar e muitas vezes abater o animal imposto por tudo isso. Tanto a autora da matéria, quanto a ONCA, estão de parabéns. Continuem fazendo esse trabalho magnífico. Sucesso na luta de vocês.

  2. O ser humano esta se perdendo na maldade, na crueldade, na dureza do seu coração…infeliz homem que se vangloria da desgraça de um ser inofensivo.
    Simplesmente lamentável…doi na alma ver e saber destas coisas….

  3. Por que será que as pessoas se divertem humilhando os animais?
    Que sadismo é esse com quem não fez nada contra eles? O que os instigam à crueldade? Por que não fazem isso entre eles mesmos,entre seus familiares?

    E o pior é que a crueldade está no DNA, está no sangue, é herança genética…

  4. Homens de verdade costumam proteger animais, não explorá-los em nome da pseuda superioridade que não tem e da racionalidade que lhes falta porque o chapéu do “cowboy de mentira” tem abas largas no lugar de pensamentos bons e impossível procurar um coração no peito de quem nasceu sem ele.

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